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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Artista do mês: Ivan Lins


Há meio que um consenso geral quando se diz que o Brasil é um pais de cantoras talentosas. De fato: nossas intérpretes são únicas e possuem uma potência artística como nunca se viu no mundo inteiro. Porém, limitar o Brasil apenas a elas e esquecer nossos soberbes compositores, é um ato falho e tanto! Tom Jobim, Vinícius de Morais, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil...todos compositores genuinamente brasileiros, mas que, volta e meia, são lembrados e citados por admiradores de música de outros países. Um deles, contudo, transcendeu demais a barreira tupiniquim e se firmou praticamente como um correspondente do Brasil da música internacional! Interessante constatar que a linguagem musical, independente de ritmo ou melodia, é uma das principais formas de comunicação entre indivíduos de países distintos e admiradores de boa música. Esperto, Ivan Lins, com sua sensibilidade, dom artístico, percepção musical quase inesgotável e, principalmente, seu piano, estabeleceu com talento este elo e hoje é um dos compositores brasileiros de maior sucesso mundial!

"Ivan Lins é um dos compositores brasileiros mais gravados no exterior e também um dos mais aplaudidos por sua obra tão expressiva." Viviane Pires, jornalista!

[Biografia inspirada na da Enciclopédia da Música Brasileira]


Ivan Guimarães Lins nasceu no Rio de Janeiro em 16 de Junho de 1945. Filho do militar Geraldo Lins e de Leia Guimarães Lins. Aos dois anos de idade, mudou-se com a família para Massachusetts, EUA, ai permanecendo por três anos. De volta ao Brasil, foi matriculado no Colégio Militar, onde, aos 12 anos, teve seu primeiro contato com a musica, por intermédio da banda do colégio. Aos 18 anos, aprendeu piano de ouvido, passando a tocar jazz e bossa nova. Em 1968, chegou a final do Festival Universitário da TV Tupi com a musica Até o amanhecer (com Valdemar Correia). Formou-se em química industrial pela UFIU em 1969. Nesse mesmo ano, Elis Regina gravou com enorme êxito a canção Madalena (com Ronaldo Monteiro); e, em 1970, obteve o segundo lugar no V FIC cantando "O amor é o meu país" (com Ronaldo Monteiro), música usada nos aviões da Varig na subida a bordo dos passageiros de vôos internacionais.

Por essa época, foi convidado, com Aldir Blanc, Gonzaguinha e outros, para comandar o programa Som Livre Exportação, da TV Globo. Em 1974 lançou o álbum Modo livre, pela RCA, com o sucesso "Abre alas", que inaugurava a parceria com o letrista Victor Martins. No ano seguinte, ainda pela RCA, lançou "Chama acesa". Em 1977 conseguiu outro grande sucesso com a musica "Somos todos iguais esta noite" (com Victor Martins), lançada em disco homônimo pela Odeon. No ano seguinte, lançou o LP "Nos dias de hoje" e, em 1979, "A noite", ambos pela Odeon. No inicio da década de 80, sua musica "Começar de novo" (composta em 1979, com Victor Martins) obteve êxito na interpretação de Simone. Na mesma ocasião, fez sucesso com o LP Novo tempo (Odeon). Transferiu-se em 1981 para a Polygram e lançou o disco "Daquilo que eu sei". Dois anos depois, gravou o LP "Depois dos temporais" (Polygram).

A partir de 1985, passou a gravar nos EUA e a realizar tournées internacionais. A repercussão alcançada o levou a criar uma editora nos EUA, a Dinorah Music, ligada a produtora de Quincy Jones. Com o reconhecimento internacional, suas musicas foram gravadas por George Benson, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, entre outros. Em 1989 gravou pela WEA o disco Love dance, todo em inglês. Sua canção "Love Dance" é um dos hits mais gravados na música internacional! Nesse mesmo ano, lançou no Brasil o disco Amar assim (Polygram). Ao comemorar 20 anos de carreira, em 1990, realizou uma tourneé pelo Brasil e lançou o disco Ivan Lins: 20 anos (Som Livre). Criou em 1991 a gravadora Velas, graças ao amigo, parceiro e sócio Victor Martins, com o objetivo exclusivo de lançar novos talentos e de resgatar as raízes da musica brasileira. Como produtor e empresário, lançou cantores como Chico César, Lenine e Belô Veloso. Em 1993 lançou no Brasil e nos EUA, Japão e Europa, o CD Awa Yio, todo em parceria com Victor Martins, tendo a musica "Meu país" obtido grande sucesso. Em 1995 lançou o CD Anjo de mim (Velas), uma vez mais com músicas em parceria com Victor Martins. Fez bastante sucesso com a música de abertura da novela "História de Amor", de Manoel Carlos, "Lembra de Mim". No ano seguinte, gravou com a banda Irakere o disco "Ao vivo em Cuba". Em 1997 lançou o CD duplo Vivanoel - Tributo a Noel Rosa (Velas), com a participação de diversos convidados. Na discografia recente de Ivan destacam-se: Jobiniando, um tributo ao maestro Tom Jobim; e Um Novo Tempo, só de canções natalinas. Isso sem falar no elogiado CD A Cor do Pôr-do-Sol, lançado no ano 2000.

"Seja em músicas de um 'sabor caribenho', como alguns críticos já disseram, seja naquelas românticas que chegam a atormentar a nossa alma, Ivan Lins, ao cantar, sempre aparece com sua voz suave. E, mais do que isso, ele sempre está encantando com seu carisma." Viviane Pires

Principais obras:


Modo livre [1974]Amar Assim [1989]
20 Anos ao Vivo [1991]
Anjo de Mim [1995]
Viva Noel: Tributo a Noel Rosa [Triplo - 1997]

A Cor do Pôr do Sol [2000]

Cantando Histórias [2004]

Acariocando [2006]

Saudades de Casa [2007]


CURIOSIDADES SOBRE IVAN LINS:

- Ivan foi casado com a atriz e cantora Lucinha Lins. E seu fulho, Cláudio Lins, além de ator, também é cantor e, volta e meia, se apresenta junto ao pai, numa sintonia bastante sensível e afinada! Uma das famílias musicais brasileiras mais bem sucedidas!

- Em sua versão em CD, o álbum "Amar Assim" trouxe uma faixa-bônus, a instrumental "Fora da lei." Ela não havia entrado no LP original por problemas de espaço.

- Ivan Lins por pouco não teve uma versão em inglês de sua canção "Novo Tempo" incluída no álbum "Thriller" de Michael Jackson. Durante visita ao Brasil em 1980, Quincy Jones ouviu a canção e pediu autorização para escrever uma versão que seria apresentada a Jackson. Lins não lhe deu resposta e "Novo Tempo" foi excluída da pré-seleção de faixas para o álbum.




ABAIXO, UM CURIOSO VÍDEO DE IVAN LINS, MOSTRANDO A MÚSICA "ANTES QUE SEJA TARDE", VIDEOCLIP APRESENTADO PELO FANTÁSTICO QUE MOSTRA CENAS DE IVAN COM SUA ENTÃO ESPOSA, LUCINHA LINS, NO FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Artista do mês: Elba Ramalho

Junho é mês de festa, principalmente aqui no Nordeste! Nesse clima festivo e na alegria contagiante da esfuziante e esganiçada cantora paraibana Elba Ramalho, nossa artista do mês!

Quando começou a fazer sucesso, nos primórdios da década de 80, Elba era uma figura atípica e curiosa. A voz estridente e com sotaque carregadíssimo a fez despertar bastante atenção em excessivas apresentações midiáticas (dentre as quais, as participações nos programas de auditório, tipo o Chacrinha). Tornou-se fácil fácil figura única no mundo do espetáculo. Não por acaso, em 1983 foi considerada a melhor cantora do Brasil, em publicação da Revista Veja. E daí não parou: traçou uma bela e sólida carreira, muito além de cordéis e ritmos puramente nordestinos (baião, forró, maracatu, cirandas...), pois, destacando-a deste panorama, Elba passou também a flertar com a pura MPB, trazendo para o cancioneiro brasileiro interpretações soberbas para grandes clássicos de cultuados compositores.
Elba nasceu na Paraíba, na zona rural da localidade de Conceição, mais conhecido como Conceição do Vale do Piancó. Em 1962, a família se mudou para a cidade de Campina Grande, também na Paraíba. O pai se tornou proprietário do cinema local. Filha de músico, despertou o interesse pela mesma ainda na adolescência. Herdou do pai a musicalidade em ritmos eminentemente nordestinos como baião, maracatu, xote, frevo, caboclinhos e forrós. Elba fez a primeira apresentação nos palcos, juntamente com o coral da Fundação Artística e Cultural Manuel Bandeira. Em 1968, enquanto cursava a faculdade de Economia e Sociologia na Universidade Federal da Paraíba, formou o conjunto As Brasas, no qual atuou como baterista, que posteriormente se transformou em grupo teatral. Contudo, Elba não deixou de cantar, e se apresentou em diversos festivais pelo Nordeste. Em 1974, Elba mudou-se para o sudeste do país, a pedido de Roberto Santana, produtor de Chico Buarque e Caetano Veloso, chegando ao Rio de Janeiro com o grupo Quinteto Violado, para apresentar como crooner durante uma temporada na cidade. No mesmo ano, participou da peça Viva o Cordão Encarnado, em parceria com o grupo teatral Chegança, de Luís Mendonça, sendo aclamada pela crítica por conta da hiperatividade no palco, o que se tornaria a principal característica. Negou-se a voltar para o Nordeste, onde abandonou o curso universitário e, na capital fluminense, se estabeleceu como atriz teatral, sempre interpretando papéis ligados à música. Sem qualquer apoio ou recurso financeiro, passou a frequentar o Baixo Leblon, onde conheceu artistas como Alceu Valença e Carlos Vereza. Em 1977, atuou no filme Morte e Vida Severina, inspirado na obra homônima do autor pernambucano João Cabral de Melo Neto. No ano seguinte pertenceu ao elenco da peça de Chico Buarque, Ópera do Malandro, dirigida por Luís Antônio Martinês Correia, na qual interpretou a prostituta Lúcia. Ainda enquanto atriz, foi vencedora de um prêmio pela interpretação da canção O meu amor, com a atriz Marieta Severo.A peça Ópera do Malandro foi lançada numa época em que a poética de Chico Buarque estava "afiadíssima". Elba Ramalho foi presença de grande destaque, o que impulsionou a carreira de atriz e cantora. Diante disso, Chico Buarque inseriu uma gravação O Meu Amor, interpretada por Elba e pela então esposa Marieta Severo, para o disco auto-intitulado, lançado em 1978, e também no álbum duplo da peça, lançado no ano seguinte. A canção foi um grande sucesso, e por isso mesmo, mereceu também um dueto das cantoras Alcione e Maria Bethânia no antológico álbum Álibi, da última, lançado naquele mesmo ano de 1978. Elba investiu na carreira de cantora e gravou o primeiro álbum, lançado pela extinta CBS (atualmente Sony Music) - numa época em que a gravadora investiu muito em artistas nordestinos -, em 1979, intitulado Ave de Prata, com destaque para a faixa-título e as canções Canta coração e Não sonho mais, esta última composta por Chico Buarque para a trilha sonora do filme A República dos Assassinos. O trabalho contou com diversas participações especiais de músicos e compositores consagrados, casos de Dominguinhos, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Novelli, Vinícius Cantuária, Sivuca, Robertinho de Recife, Nivaldo Ornelas e Jackson do Pandeiro - parcerias que perduram até os dias atuais. A partir de então, o sucesso apareceu de forma gradual, embora ela própria considere que o teatro esteja presente em todos os espetáculos, sendo o grande responsável pela força cênica peculiar. As apresentações também obtiveram relevante sucesso em teatros internacionais, como o Olympia de Paris, o Blue Note de Nova Iorque, o Brixton Academy, de Londres e o Festival de Montreux, na Suíça. O repertório se manteve eclético durante todo esse tempo, trazendo canções típicas do nordeste brasileiro, baladas românticas, rocks, sambas e até o blues norte-americano.

Em 1980 gravou o segundo LP, Capim do vale, que trouxe canções de compositores nordestinos antigos e contemporâneos, apresentando um repertório regional, com destaque para a faixa-título e as canções Banquete dos signos, Porto da saudade, Caldeirão dos mitos e Veja (Margarida), e fez a primeira turnê internacional, na África. No ano seguinte, lançou o disco Elba, o último para a gravadora CBS, com arranjos de Miguel Cidras e José Américo Bastos, que não obteve maior repercussão; destaque para as canções Temporal e Cajuína, e duas faixas somente de voz e violão - O pedido e Eu queria.
Em 1982 transferiu-se para a extinta gravadora Ariola/Barclay (atualmente Universal Music), marcando o início da fase de maior popularidade na carreira, disputando a parada de sucessos daquele ano com outras cantoras como Gal Costa, Simone, Rita Lee, Beth Carvalho, Baby Consuelo, Amelinha e Clara Nunes. O trabalho que marca a estreia nessa gravadora - Alegria, produzido por Aramis Barros com direção artística de Mazzola -, vendeu mais de 300 mil cópias, lhe rendendo o primeiro disco de ouro, emplacando nas paradas de sucesso os forrós Bate coração, Amor com café (ambos de Cecéu) e No som da sanfona, de autoria de Jackson do Pandeiro, que também tocou pandeiro na faixa e viria a falecer em 10 de julho daquele ano; também se apresentou na Suíça, Portugal, Israel e ainda participou da série Grandes Nomes (TV Globo), ao lado de Alceu Valença.
Sobre a escolha de Bate coração, lançada por Marinês no ano anterior, Elba comenta: "Um primo meu, médico, o Ari Viana, pesquisava muito as músicas da Marinês, que era meu ídolo, e me mandava para eu ouvir. Numa dessas, esbarrei com o Bate coração e resolvi cantar." O álbum também trouxe arranjos do maestro José Américo Bastos e canções de Lula Queiroga (Essa alegria - Caboclinhos), Alceu Valença (Chego já), Vital Farias (Sete cantigas para voar, com arranjo e violão do próprio) e Geraldo Azevedo (Menina do lido, gravada em dueto com o autor). A partir deste álbum, que lhe garantiu seus primeiros discos de ouro e platina, o sotaque estava menos carregado, ao contrário dos três primeiros discos. Em seguida, houve o espetáculo homônimo, o primeiro que foi muito elogiado pela imprensa, pois rompeu com a estética do rústico e do sombrio que norteava as apresentações de muitos de seus conterrâneos na música brasileira; neste, já havia um cenário de figurinos exuberantes, combinações de luzes e cores e o clima festivo das ruas nordestinas. Sobre o espetáculo, Elba declarou: "mostro meu lado teatral desde o meu primeiro show, Ave de prata, mas o Alegria foi a afirmação disso. Foi meu primeiro espetáculo muito elogiado pela imprensa." Trata-se também de um show com efeitos teatrais, com Elba interpretando personagens que havia feito anos antes em peças de teatro, como Mateus e Catarina. No repertório deste, destaque para a canção Deixa escorrer, de Caetano Veloso sobre poema de Mayawowski, que a censura vetara a inclusão no LP. Em 1983 lança o elogiadíssimo álbum Coração Brasileiro, que contou com a produção de Mazzola e arranjos de Lincoln Olivetti (Banho de cheiro e Vida e carnaval), Luiz Avellar (Toque de fole e Batida de trem), César Camargo Mariano (Ave cigana, Canção da despedida e A volta dos trovões), Francis Hime (Se eu fosse o teu patrão), o grupo A Cor do Som (Chororô), Severo (Roendo unha) e Zé Américo (Ai que saudade d'ocê). Os maiores êxitos do repertório foram as canções: Banho de cheiro (frevo de Carlos Fernando e faixa de abertura do álbum), o xaxado Toque de fole (Bastinho Calixto e Ana Paula) - primeira faixa a estourar nas rádios -, a toada Canção da despedida (parceria bissexta de Geraldo Azevedo e Geraldo Vandré, censurada durante a ditadura militar) e o xote Ai que saudade d'ocê (Vital Farias). O disco contou com as participações especiais de Chico Buarque, os grupos Céu da Boca e Roupa Nova, e o guitarrista Robertinho de Recife nas faixas Se eu fosse o teu patrão - composta por Chico para a peça A Ópera do Malandro -, A volta dos trovões (Bráulio Tavares e Fuba) e Vida e carnaval (Moraes Moreira e Aroldo), respectivamente. Na faixa Toque de fole inclusive, contou com a participação especial dos sanfoneiros Sivuca, Severo e Zé Américo.A faixa-título, de autoria do mineiro Celso Adolfo, aparecia apenas como uma vinheta de 15 segundos; apesar de constar no encarte com a letra completa, somente os primeiros versos eram cantados, à capela: No meu coração brasileiro / Plantei um terreiro / Colhi um caminho / Armei arapuca / Fui pra tocaia / Fui guerrear. O trabalho consagrou definitivamente a cantora e conquistou discos de ouro e platina, e originou o espetáculo homônimo aclamado pela crítica especializada, realizado na casa carioca de espetáculos Canecão, bateu pela primeira vez os recordes de público ali registrados nos shows de Roberto Carlos; foram 97 mil pessoas em dez semanas, traduzidas em 44 apresentações, com ingressos esgotados duas semanas antes do término da temporada. Elba foi capa da Veja na edição de 30 de novembro, sendo considerada pela revista a maior estrela da música brasileira em 1983, cuja manchete de capa era O brilho da estrela, que dizia: Depois do sucesso no Canecão e da semana de seu especial na TV Globo, Elba Ramalho se reafirma como figura única no mundo do espetáculo. A cantora foi também tema do especial de fim de ano da Rede Globo, exibido na sexta-feira, 2 de dezembro de 1983. Em relação às fotos teatrais da contracapa, foi uma ideia do diretor Naum Alves de Souza, de rebobinar personagens que Elba havia interpretado em espetáculos ao longo da carreira; o anjinho e o leque da capa, presentes da amiga Marieta Severo, que por sinal lhe apresentou ao diretor. No ano seguinte, a Polygram alemã decidiu que seria o primeiro trabalho solo de um artista brasileiro a ser lançado internacionalmente em CD - três anos antes de o formato começar a ser comercializado no Brasil com artistas nacionais, por meio da série Personalidade. Prosseguiu com o álbum Do jeito que a gente gosta (1984), produzido por Mazzola e lançado num momento em que a cantora estava no auge do sucesso. O repertório deste, escolhido a quatro mãos com o produtor, apresentou grande versatilidade de ritmos, com destaque para dois forrós nordestinos, puxados a sanfona e zabumba: a faixa-título (Severo e Jaguar) e Forró do poeirão (Cecéu); da cultura pernambucana, dois frevos - Moreno de ouro (Carlos Fernando e Geraldo Amaral) e Energia (Lula Queiroga) - e um maracatu (Toque de amor de João Lira e José Rocha); baladas românticas, como Calmaria (do maestro Zé Américo, com Salgado Maranhão) e Amor eterno (de Tadeu Mathias e Ana Amélia, inspirada em um soneto de Shakespeare) - que integrou a trilha sonora da novela global Livre para Voar, de Walther Negrão -, uma toada mineira, a faixa de abertura Azedo e mascavo (Celso Adolfo) e, encerrando o disco em tom de protesto, a provocativa Nordeste Independente (Imagine o Brasil) (Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova), gravada ao vivo no espetáculo inspirado no trabalho anterior, e um dos momentos de maior sucesso do espetáculo, mas que não havia entrado no disco Coração brasileiro.Esta canção teve a execução pública proibida à época de lançamento do disco, e o LP foi vendido com um lacre vermelho, escrito que era proibida a radiodifusão dessa música. Elba comenta: "Foi um fato que chamou a atenção, pois eu estava no auge e aquilo causou muita notícia e curiosidade do público". Os arranjos ficaram a cargo de José Américo Bastos, César Camargo Mariano (Azedo e mascavo e Amor eterno) e Lincoln Olivetti (nos frevos). O trabalho seguinte, Fogo na mistura (1985) - produzido por Mazzola e o último da fase de maior popularidade da carreira - nasceu num período de efervescência política no Brasil, graças à campanha pelas Diretas Já, processo iniciado no ano anterior, e que atingiu o clímax quando Tancredo Neves foi eleito para presidente no Colégio Eleitoral. Elba se engajou nessa campanha e participou de diversos atos em prol da liberdade política e artística. Isto se reflete em letras politizadas como a da faixa-título e o frevo Pátria amada, a faixa de encerramento, que integrou a trilha sonora do filme homônimo de Tizuka Yamazaki. Sobre essa época, Elba revelou em entrevista a Rodrigo Faour: Tive uma vivência política quando era universitária. Fui presidente do diretório de estudantes, depois vivi bem de perto o final da ditadura, vi 'amigos sumindo assim', como dizem os versos de Gilberto Gil. Em meu trabalho, independente de ideologia - nunca gostei nem de comunistas -, sempre tive uma preocupação em tocar na questão social. Acho importante. Por isso, também participei da campanha das eleições diretas e cheguei a ser amiga de Tancredo Neves. Depois de uma turnê a Cuba, e influenciada por cantores como Silvio Rodrigues e Pablo Milanés - chegou a fazer a apresentação de um disco que este último lançou naquele mesmo ano em solo brasileiro -, três faixas deste álbum foram gravadas em Miami com arranjos e execução de músicos cubanos residentes ali: a faixa-título, de Tunai e Sérgio Natureza - que aparece na abertura do LP -, mas a temática caribenha apareceu com maior intensidade nas faixas Como se fosse a primavera (Canción) (versão de Chico Buarque para tema de Pablo Milanés com Batista Nicolas Guillen, gravada por Chico no ano anterior) e No caminho de Cuba (Jaime Alem, atualmente maestro da cantora Maria Bethânia, mas que à época pertencia à banda de Elba), se revelando também nas temáticas e mesmo no gênero rítmico, com uma acentuada latinidade; ao longo da carreira, Elba voltaria várias vezes à estética musical caribenha - em números dos discos seguintes, como Remexer, Elba e Popular brasileira, e principalmente em 1993 quando gravou o álbum Devora-me totalmente voltado para esta sonoridade. Além disso, o álbum trouxe um forró (Mexe mexe funga funga, de Severo e Jaguar) - primeira faixa de trabalho -, samba de pegada pop (Anjo do prazer, de Tadeu Mathias e Jaguar) e fusões rítmicas (Sambaiãozar, de Pinto do Acordeon). Mas também trouxe o maior sucesso da carreira até hoje, a toada romântica De volta pro aconchego (de Dominguinhos e Nando Cordel). A música foi popularizada devido à sua inclusão na trilha da novela global Roque Santeiro de Dias Gomes - censurada há dez anos e somente liberada em 1985, trazendo no elenco atores veteranos e novatos, contando com uma audiência maciça, e poucas vezes vista na televisão brasileira. A música chegou às mãos da cantora no ritmo do baião; foi dela a ideia de romantizar o tema, ganhando arranjo de Dori Caymmi. Curiosidade: o cantor e compositor Caetano Veloso homenageou essa interpretação da cantora na música Pra ninguém, gravada por ele em 1997 no álbum Livro, em que homenageia e cita suas interpretações preferidas; quando chega na vez de Elba, é dito: Elba cantando De volta pro aconchego. Em 1991 lançou o álbum Felicidade urgente, que contou com a produção de Nelson Motta, arranjos do maestro e pianista Eduardo Souto Neto e as participações especiais de Lulu Santos na faixa Vida, Cláudio Zoli na faixa-título, Djavan em Ventos do norte, Sandra de Sá na música Maré dendê e Oswaldinho do Acordeon na faixa de encerramento - a célebre La vie en rose, gravada originalmente pela cantora francesa Edith Piaf; o trabalho misturou canções inéditas e regravações (Vida, Morena de Angola, Pisa na fulô, É d'Oxum e La vie en rose); no ano seguinte foi a vez de Encanto, produzido pela própria cantora, cujo repertório mostrou um bom equilíbrio entre forrós e canções românticas e contou com a participação especial de Margareth Menezes na faixa Cidadão. Em 1993 o disco Devora-me simulou uma incursão pela sonoridade latina, tendo sido gravado em Porto Rico e produzido por Glenn Monroig; em entrevistas da época, Elba declarou que apesar de ter nascido em solo brasileiro, tinha a intenção de ampliar sua música para outros públicos na América do Sul. O maior sucesso do álbum foi a faixa de encerramento Coração da gente, tema de abertura da novela da Rede Globo Tropicaliente, de Walther Negrão. A versão internacional deste trabalho trouxe uma faixa-bônus - no caso, a referida faixa Coração da gente vertida para o espanhol, mas trouxe também versões de canções caribenhas (Cora coração, Devora-me outra vez, Força interior e Desesperada).Anteriormente a esse trabalho, no mesmo ano foi lançada a coletânea O Grande Forró de Elba Ramalho, uma seleção de canções pertencentes a discos anteriores da cantora, com duas faixas inéditas: Chegadinho e Eu quero meu amor - esta última também fez parte do repertório de Devora-me e da trilha sonora da novela global Renascer, de Benedito Ruy Barbosa. O trabalho que marca a saída da gravadora Polygram é Paisagem (1995), cujo maior destaque foi a regravação de Paisagem na janela, que integrou a trilha sonora do remake da novela Irmãos Coragem. Desde então é tida como uma das principais intérpretes da música brasileira, com expressivas vendagens, graças à presença de palco e voz inconfundível. Em 1996, lança o elogiado e bem-sucedido CD Leão do Norte, que marcou a estreia na gravadora BMG e vendeu mais de 300 mil cópias, exaltando a cultura nordestina e pernambucana (com a faixa-título de Lenine e Paulo César Pinheiro). O espetáculo homônimo foi dirigido por Jorge Fernando e obteve relevante sucesso no Brasil inteiro, arrematando o prêmio de Melhor show do ano, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo e também originou um VHS contendo os melhores momentos do espetáculo. Naquele mesmo ano, excursiona com o espetáculo O grande encontro, juntamente com Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo. O primeiro disco da trilogia vende mais de um milhão de cópias, trazendo clássicos da MPB e da música nordestina. Em 1997 chegou às lojas o disco Baioque, composto basicamente de regravações de músicas urbanas de autores nordestinos, como Raul Seixas (S. O. S.), Belchior (Paralelas), Ednardo (Pavão misterioso), Zé Ramalho (Vila do sossego), Caetano Veloso (Os argonautas), Gilberto Gil (Vamos fugir), Lenine (Relampiano), Alceu Valença (Ciranda da rosa vermelha), dentre outros; assim como o trabalho anterior, este também foi produzido pelo músicos Robertinho do Recife que também foi responsável por alguns arranjos e regência. O espetáculo bisou a parceria com Jorge Fernando e o sucesso do espetáculo baseado no disco anterior e a reedição deste CD trouxe a faixa-bônus Paris, que não constava da versão original. Graças ao sucesso do projeto O grande encontro, foi lançado um segundo volume do álbum, mas desta vez só não contou com a participação de Alceu Valença, além de excursionar pelo Brasil inteiro; o repertório deste trouxe sucessos dos três artistas.

Em 1998 lança o CD Flor da Paraíba, o último da trilogia produzida por Robertinho de Recife, trazendo algumas regravações e canções inéditas de compositores nordestinos, priorizando canções no estilo do forró. O título do álbum é inspirado em uma dedicatória feita, há muitos anos, pelo cantor e compositor Caetano Veloso, quando a cantora acabara de chegar ao Rio de Janeiro para despontar no meio musical.
Em 2001, a inclusão da balada "Entre o Céu e o Mar" na trilha da novela Porto dos Milagres ajudou a promover o disco Cirandeira, ao qual se seguiu um tributo a Luiz Gonzaga no disco Elba Canta Luiz (2002) – cujo show de lançamento renderia o CD Elba ao Vivo (2003). Em 2004, uma turnê nacional com Dominguinhos seria o ponto de partida do disco que saiu no início de 2005, gravado em estúdio com inéditas ("Rio de Sonho", "Forrozinho Bom", "Chama") e clássicos de autoria de Domiguinhos, casos de "Eu Só Quero Um Xodó" e "De Volta pro Aconchego", este um sucesso eternizado em 1985 pela própria Elba, a voz agreste que traduz a riqueza musical nordestina para o Brasil.

Os jornalistas e a imprensa em geral costumam atribuir funções variadas no cenário da MPB. A de Elba, inevitavelmente, lhe faz carregar em si o título de "rainha nordestina", afinal, surgiu para ser devota de Luiz Gonzaga, Nando Cordel, Dominguinhos e muitos outros mestres, assim como também pode ser considerada contemporânea da mesma safra de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho e muitos outros. Não por acaso, criou, ao lado dos últimos citados, uma série de encontros musicais que marcou a música popular brasileira, justamente os chamados "Grande Encontros", na década de 90. A música nordestina não seria a mesma sem a delicadeza e presença potencial de Elba Ramalho para representar seus inúmeros clássicos!

P.s.: Cabe aqui um comentário adicional: vocês já contemplaram um show de Elba em plenos festejos juninos em Caruaru ou Campina Grande? Estariam diante de uma deusa reverenciada, pois a plateia urge em sinergia com a esfuziante potência de espetáculo da cantora. Um fenômeno!

Não desmerecendo grandes figuras femininas do Nordeste como Carmélia Alves, Marinês, Lia de Itamaracá, Rita Ribeiro e a mulherada fenomenal da Bahia, mas a vez agora no EnTHulho Musical é da super Elba Ramalho!




domingo, 8 de maio de 2011

Artista do Mês: Raul Seixas

Raul dos Santos Seixas nasceu em Salvador, Bahia, em 28 de junho de 1945, filho de Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Seixas. Filho da mesma região e geração que Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa entre tantos outros que definiram o movimento chamado Tropicália, Raul teve ao contrário destes em sua infância maior contato e assimilação do rock and roll em virtude de ser vizinho e amigo de filhos de famílias americanas que trabalhavam para o consulado americano na Bahia. Tornou-se logo fã ardoroso de Elvis Presley, fundando aos 14 anos um fã-clube brasileiro do cantor (Elvis Rock Club). Engana-se porém quem pensa que Raul renegou a cultura brasileira adotando o rock and roll; odiava a bossa nova, mas acrescentou ao seu rock elementos de música nordestina como o baião, xaxado, música brega. Aluno relapso (repetiu várias vezes a segunda série ginasial) apesar de muito inteligente e leitor voraz, rapidamente se cansa da escola decidindo pela profissionalização como músico. Em 1962 em meio ao movimento bossa nova que explodia no Brasil, Raul monta sua primeira banda, Os Relâmpagos do Rock, que mais tarde teria seu nome mudado para The Panthers e finalmente Raulzito e os Panteras. Pela formação do grupo passaram entre outros além de Raul (vocal e guitarra), Thildo Gama, Perinho (guitarra), Mariano Lanat (baixo), Carleba (bateria). Logo abandona a faculdade de direito. Gravam um compacto que seria distribuido para rádios com duas músicas (sendo uma versão de Elvis Presley). Apresentam-se em clubes e algumas vezes em rádio e TV. Começam a formar fama como expressão local do movimento Jovem Guarda da época (liderado por Roberto Carlos, Jerry Adriani, Erasmo Carlos, Wanderléa, etc, por sua vez versões brasileiras do sucesso dos Beatles). Com o apoio de Jerry Adriani sai em turnê pelo Brasil com os Panteras (abrindo os shows do primeiro) e grava em 1968 o seu primeiro LP, auto entitulado. Não alcançando nenhuma repercussão a nível nacional Raul volta para Salvador possivelmente pretendendo abandonar a música. Sairia da Bahia novamente para tentar carreira de produtor na CBS onde produziria e comporia para Jerry Adriani, Renato e Seus Blue Caps, Trio Ternura, Sérgio Sampaio, entre outros astros da época. Perderia este emprego por produzir e gastar dinheiro sem conhecimento dos seus superiores na prensagem de seu segundo LP, Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez. Em 1972 alcançou a tão desejada repercussão nacional classificando duas músicas no Festival Internacionl da Canção, evento de grande repercussão montado anualmente pela Rede Globo, um concurso de músicas. Raul participou com Let Me Sing Let Me Sing (que chegaria às finais) e Eu Sou Eu Nicuri é o Diabo. A boa aceitação lhe valeu seu primeiro contrato com uma gravadora, a Philips Phonogram. Lançou um compacto de Let Me Sing Let Me Sing e o LP coletânea de covers 24 Maiores Sucessos da Era do Rock (que nem mesmo traz o nome de Raul, sendo lançado sobre o nome de uma banda Rock Generation). O segundo compacto, Ouro de Tolo, foi o seu primeiro grande sucesso. Em 1973 saiu o LP Krig-Ha Bandolo! apresentando as primeiras parcerias de Raul com o companheiro de estudos esotéricos Paulo Coelho. Começaram a formar em parceria o grupo Sociedade Alternativa, anarquista, baseado na doutrina de Aleister Crowley e também destinado a estudos esotéricos. Chegariam a pensar em construir em Minas Gerais a comunidade alternativa Cidade das Estrelas. O movimento foi porém considerado subversivo pelo governo militar. Raul (que aparentemente passou por sessões de tortura), Paulo e as respectivas esposas (Edith e Adalgisa) foram exilados nos estados unidos. Raul viria a conhecer durante o exílio alguns de seus ídolos, Elvis Presley, John Lennon e Jerry Lee Lewis. Voltaram ao Brasil em 1974 em meio ao sucesso do segundo LP, Gita, possivelmente o seu lançamento de maior vendagens e repercussão, ganhando discos de ouro e participando da trilha sonoras da novela O Rebu. A Philips chegou a relançar 24 Maiores Sucessos... sobre um novo nome, 20 Anos de Rock e dessa vez sobre o nome de Raul.

Seguiriam-se então LPs de grande repercussão, Novo Aeon, Há 10 Mil Anos Atrás (último em parceria com Paulo Coelho), Raul Rock Seixas, O Dia Em Que a Terra Parou. (capa do cabeçalho do
EnTHulho Musical esse mês). No início da década de 80, Raul Seixas começou a apresentar problemas de saúde em virtude de consumo exagerado de álcool. Não parou porém de lançar discos e projetos, Mata Virgem, Por Quem os Sinos Dobram, Abre-te Sésamo. Passou a sofrer de hepatite crônica em virtude da bebida e estava em um hiato de contratos e shows.
Após a queda de vendagens nos últimos discos e um longo boicote de gravadoras, estourou novamente em 1978 com a música Carimbador Maluco do LP Raul Seixas, parte do especial infantil Plunct Plact Zumm da Rede Globo. Seguiram-se os discos Metrô Linha 743, Uah Bap Lu Bap La Bein Bum (com o que seria seu último grande hit, Cowboy Fora da Lei) e A Pedra do Gênesis (que deveria ser apenas parte de um projeto maior chamado Opus 666 que não chegou a ser lançado). Em 1988 Raul passou a compor, gravar e excursionar com o também baiano Marcelo Nova, vocalista da banda Camisa de Vênus (então em fase de extinção). Em 21 de Agosto de 1989, apenas dois dias após o lançamento de A Panela do Diabo, Raul Seixas morre de um ataque cardíaco em virtude de problemas causados pela bebida. Curiosamente após a sua morte tem o seu talento mais reconhecido do que nunca, arregimentando a cada dia mais seguidores, sendo lançados postumamente registros inéditos e coletâneas, todos sucessos de vendas. Em sua carreira foi pioneiro na mistura de todo tipo de influência musical ao rock and roll, passeando e acrescentado com desenvoltura e sem preconceitos ritmos nordestinos (Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor), folk ao estilo Bob Dylan (Ouro de Tolo), música brega (Sessão das 10), umbanda (Mosca na Sopa). Em suas letras abordava com igual desenvoltura temas tão díspares quanto sentimentos humanos, críticas ao sistema, esoterismo e agnosticismo. A sua mensagem muitas vezes está implícita em letras que podem ser taxadas de bobas pelos menos perspicazes (vide a letra de Carimbador Maluco) e em outros momentos é pura poesia (como em Canção Para Minha Morte).

ABAIXO, A ÚLTIMA GRANDE ENTREVISTA DE RAUL SEIXAS, CONCEDIDA COM MARCELO NOVA A JÔ SOARES, EM 1989. VALE A PENA CONTEMPLÁ-LA, POIS RAUL FALA DE MANEIRA SINCERA E DIVERTIDA SOBRE DIVERSOS CAUSOS, SOBRETUDO SEU EXÍLIO DO PAÍS E ENCONTRO COM JOHN LENNON!


terça-feira, 12 de abril de 2011

Artista do Mês: Antônio Carlos Jobim


Esta cidade é um lugar paradisíaco, com essas montanhas, essas matas, esse céu azul lavado, esse sol, essas garotas e até essas águas de março, que já começam a chegar. Mas meu amigo Oscar Niemeyer estava com a razão quando me disse que uma cidade só é cidade até 800 000 habitantes." Tom, sobre o Rio de Janeiro.

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim tem a responsabilidade de carregar consigo o título de maior artista brasileiro. Por mais que discordem, poucos chegam ao seu patamar de elogios e reconhecimento – bem mais no exterior que aqui, fato...

É bem verdade que, em alguns momentos de sua vida (abreviada em 1994, em Nova Iorque), ele chegou a rechaçar a posição: “ Fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal”, disparado num mau momento, por estar bastante chateado com as críticas brasileiras ao refinamento e “americanização” de sua obra. O que chega a ser injusto: suas composições fizeram (e ainda fazem) muito sucesso falando de coisas brasileiríssimas – musicou com grande dose de observação e imaginação nossas matas, bichos, cidades, paisagens, lugares onde viveu e, principalmente, amou. Deu imagem musicada a tantas mulheres brasileiras, sem ou com nomes (Luizas, Heloísas, Lígias) e consegue primar pelo melhor da música nacional por onde passa.

“A música brasileira é a melhor do mundo, incomparável, e deve um crédito gigantesco à contribuição de Antônio Carlos Jobim”, diz seu Edmar Araújo, meu avô e cri-crítico musical. Se passou pelo crivo de sua aprovação, ta no lucro e presta, acreditem! :) “Quando engloba a obra de um gênio que se notabilizou por descrever em sons o que nem as palavras alcançam - a montanha, o Sol, o mar e outras maravilhas da arquitetura divina.” Diz o jornalista Marcelo Ferla, à revista Rolling Stone.

Enxergo Tom como um maestro soberano (título, aliás, conferido por Chico Buarque) que conduz com real soberania uma música que realmente importa, totalmente magnética aos ouvidos brasileiros e estrangeiros. Sua inspiração é tanta que consegue eternizar mundialmente grandes composições que versam assuntos tão genuinamente brasileiros, cariocas, locais. Ele situa o Rio do Janeiro perante todo Brasil, e faz o mesmo com o Brasil perante o mundo – e a mágica de seu universo consegue explicar o porquê de perdurarem seus inspirados sonhos musicados até os dias de hoje.

Em 1956 musicou a peça Orfeu da Conceição com Vinícius de Moraes, que se tornou um de seus parceiros mais constantes. Dessa peça fez bastante sucesso a canção antológica Se Todos Fossem Iguais a Você, gravada diversas vezes. Tom Jobim fez parte do núcleo embrionário da bossa nova. O LP Canção do Amor Demais (1958), em parceria com Vinícius, e interpretações de Elizeth Cardoso, foi acompanhado pelo violão de um baiano até então desconhecido, João Gilberto. A orquestração é considerada um marco inaugural da bossa nova, pela originalidade das melodias e harmonias. Inclui, entre outras, Canção do Amor Demais, Chega de Saudade e Eu Não Existo sem Você. A consolidação da bossa nova como estilo musical veio logo em seguida com o 78 rotações Chega de Saudade, interpretado por João Gilberto, lançado em 1959, com arranjos e direção musical de Tom, selou os rumos que a música popular brasileira tomaria dali para frente. No mesmo ano foi a vez de Sílvia Telles gravar Amor de Gente Moça, um disco com 12 canções de Tom, entre elas "Só em Teus Braços", "Dindi" (com Aloysio de Oliveira) e "A Felicidade" (com Vinícius). 

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 25 de Janeiro de 1927, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Mudou-se logo depois para Ipanema, onde foi criado. A ausência do pai, Jorge de Oliveira Jobim, durante a infância e adolescência lhe impôs um contido ressentimento, desenvolvendo no maestro uma profunda relação com a tristeza e o romantismo melódico, transferido peculiarmente para as construções harmônicas e melódicas. Aprendeu a tocar violão e piano em aulas, entre outros, com o professor alemão Hans-Joachim Koellreutter, introdutor da técnica dodecafônica no Brasil. Pensou em trabalhar como arquiteto, chegando a cursar o primeiro ano da faculdade e até a se empregar em um escritório, mas logo desistiu e resolveu ser pianista. Tocava em bares e boates em Copacabana, como no Beco das Garrafas no início dos anos 1950, até que em 1952 foi contratado como arranjador pela gravadora Continental, onde trabalhou com Sávio Silveira. Além dos arranjos, também tinha a função de transcrever para a pauta as melodias de compositores que não dominavam a escrita musical. Datam dessa época as primeiras composições, sendo a primeira gravada "Incerteza", uma parceria com Newton Mendonça, na voz de Mauricy Moura

O sucesso fora do Brasil o fez voltar aos EUA em 1967 para gravar com um dos grandes mitos americanos, Frank Sinatra. O disco Francis Albert Sinatra e Antônio Carlos Jobim, com arranjos de Claus Ogerman, incluiu versões em inglês das canções de Tom ("The Girl From Ipanema", "How Insensitive", "Dindi", "Quiet Night of Quiet Stars") e composições americanas, como "I Concentrate On You", de Cole Porter. No fim dos anos 1960, depois de lançar o disco Wave (com a faixa-título, Triste, Lamento entre outras instrumentais), participou de festivais no Brasil, conquistando o primeiro lugar no III Festival Internacional da Canção (Rede Globo), com Sabiá, parceria com Chico Buarque, interpretado por Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. Sabiá conquistou o júri, mas não o público, que vaiou ostensivamente a interpretação diante dos constrangidos compositores.

Depois da Continental, foi para a Odeon. Entretanto, não tinha tanto tempo para se dedicar à composição, que lhe interessava mais. É nesse época que compõe alguns sambas, em parceria de Billy Blanco: Tereza da Praia, gravada por Lúcio Alves e Dick Farney pela Continental (1954), Solidão e a Sinfonia do Rio de Janeiro. Tereza da Praia o primeiro sucesso. Depois disso, ocorreram outras parcerias, como com a cantora e compositora Dolores Duran, na canção Se é por Falta de Adeus.

Aprofundando seus estudos musicais, adquirindo influências de compositores eruditos, principalmente Villa-Lobos e Debussy, Tom Jobim prosseguiu gravando e compondo músicas vocais e instrumentais de rara inspiração, juntando harmonias do jazz (Stone Flower) e elementos tipicamente brasileiros, fruto de suas pesquisas sobre a cultura brasileira. É o caso de "Matita Perê" e "Urubu", lançados na década de 1970, que marcam a aliança entre sua sofisticação harmônica e sua qualidade de letrista. São desses dois discos Águas de Março, Ana Luiza, Lígia, Correnteza, O Boto, Ângela. Também nessa época grava discos com outros artistas, como Elis e Tom, com Elis Regina, Miúcha e Tom Jobim e Edu e Tom, com Edu Lobo.

Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura, cantou, ainda que com uma participação individual diminuta, no coro da versão brasileira de We are the world, o hit americano que juntou vozes e levantou fundos para a África ou USA for Africa. O projeto Nordeste Já (1985) abraçou a causa da seca nordestina, unindo 155 vozes num compacto, de criação coletiva, com as canções Chega de mágoa e Seca d´água. Elogiado pela competência das interpretações individuais, foi no entanto criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro.

Em 1987, lançou Passarim, obra de um compositor já consagrado, que pode desenvolver seu trabalho sem qualquer receio, acompanhado por uma banda grande, a Banda Nova. Além da faixa-título, Gabriela, Luiza, Chansong, Borzeguim e Anos Dourados (com Chico Buarque) são os destaques. Em 1992 foi enredo da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Seu último álbum, Antônio Brasileiro, foi lançado em 1994, pouco antes da sua morte, em dezembro, de parada cardíaca, quando estava se recuperando de um câncer de bexiga no Hospital Mount Sinai, em Nova Iorque.

Tom foi um dos destaques do Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York em 1962. No ano seguinte compôs, com Vinícius, um dos maiores sucessos e possivelmente a canção brasileira mais executada no exterior: "Garota de Ipanema". Nos anos de 1962 e 1963 a quantidade de "clássicos" produzidos por Tom é impressionante: "Samba do Avião", "Só Danço Samba" (com Vinícius), "Ela é Carioca" (com Vinícius), "O Morro Não Tem Vez", "Inútil Paisagem" (com Aloysio), "Vivo Sonhando". Nos Estados Unidos gravou discos (o primeiro individual foi The Composer of Desafinado, Plays, de 1965), participou de espetáculos e fundou sua própria editora, a Corcovado Music.


Por THIAGO HENRICK,
advogado, roteirista,
jornalista musical platônico.