quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Mosaico Contemporâneo e Musical de Beatrice Mason

Por Bruno Negromonte

A carreira de advogada bem-sucedida em New York não foi o suficiente para completá-la; dessa forma, Beatrice (a última sílaba se pronuncia como o nome do revolucionário “Che” Guevara) Mason não hesitou e foi em busca daquilo que realmente ansiava; isso tudo resultou em um álbum composto por um mosaico de estilos e compositores contemporâneos.

Não muito tempo atrás a carioca descendentes de alemães e italianos Beatrice Mason exercia a carreira de advogada nos Estados Unidos e vivia acerca de processos jurídicos diversos envolvendo o mercado de capitais, fusões e aquisições. Sua lida era usar da jurisprudência, e isso consumia praticamente todo o seu tempo, sufocando aquilo a que realmente tinha paixão.

A mudança desta rotina cansativa só se deu quando veio a gravidez e junto com ela uma licença. O tempo que até então não existia por conta dos afazeres profissionais deu lugar a outra qualidade de vida com a inserção da música em sua vida. Esse "ócio" tornou-se extremamente produtivo quando Beatrice o aproveitou para "reatar" com o seu antigo love affair: a música. Era uma complicada e difícil escolha, mas Beatrice já estava decidida em trocar em definitivo a promissora carreira de advogada pela carreira de cantora. Depois de decidida retomou as aulas de instrumentação, canto e idiomas.

Mason iniciou as aulas de flauta doce e canto na Associação Canto Coral quando tinha apenas seis anos, foi nesse período que passou a cantar no Coral Curumim sob a regência de Elza Lakschewitz (que depois a levou para o coro infantil do Theatro Municipal) e também no coral do Colégio Cruzeiro, que tinha como regente a sua mãe Heidi, que tornou-se (juntamente com o pai) a responsável pelo ouvido da cantora ter se habituado desde pequena à música erudita entressachado com as canções que vinham do rádio de Alzira, a doméstica que na residência de Beatrice não se cansava de ouvir os grandes nomes da MPB. Ainda na infância, Beatrice estudou canto erudito com Vera Canto e Mello, e popular, com Paula Santoro e Felipe Abreu. Além de ter estudado também teoria musical e piano. Vale salientar que foi no período do Theatro Municipal que acabou conhecendo o hoje amigo e compositor Eduardo Krieger além de ter sido também nessa época que participou da montagem de algumas óperas como Carmen, La Bohème e Werther.

Os anos se passaram e a adolescência chegou, a música nesse período já se fazia bastante presente no cotidiano da jovem Beatrice, pois além das aulas de canto ela simultaneamente começou a pôr em prática seus aprendizados em uma orquestra de flautas e em um trio barroco do instrumento de sopro. A música, tanto a lírica quanto a erudita, nunca deixaram a já crescida Beatrice. Só quando adulta foi que a música perdeu espaço para o curso de direito e posteriormente para a profissão de advogada na rotina de Mason. Isso até o dia em que aconteceu tudo aquilo que citei antes.

Sua estreia profissional se deu em meados de 2005 no palco do Mistura Fina com o show "Coração tranquilo", com a ajuda da também, na época, iniciante Roberta Sá e sob direção de Cyro Telles que foi apresentado a Mason por Roberta. Em seguida, dois anos depois veio o segundo espetáculo dirigido por Carlos César Motta e intitulado "Alumbramento". Desse show em diante ela veio conquistando não só a admiração do público, mas também elogios da crítica especializada.

Em 2010, depois de acumular anos de experiência em seu dia-a-dia enquanto artista, Beatrice resolve registrar todo esse "know-how" adquirido em disco, aventurando-se de maneira pra lá de audaciosa com um álbum diferente e livre de clichês. Essa espera de cerca de 05 anos para o primeiro registro fonográfico foi válida, trouxe o resultado da rotina de aprendizados que a vida se encarrega de nos presentear, é algo semelhante ao que o escritor francês Proust certa vez escreveu:"Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem", talvez só por isso foi que meia década depois Beatrice resolveu aventurar-se pelo mercado fonográfico lançando o cd "Mosaico"(que pode ser adquirido clicando na imagem da capa presente aqui nesta matéria).


 
Tudo começou a princípio de maneira independente, próximo ao término da produção ganhou a parceria do selo do Centro Cultural Carioca Discos e, depois de pronto, teve a distribuição pela Universal. O mais marcante do álbum é que ele foi concebido de maneira que não faz a linha comercial e dentre as características que levam a isso está a ausência de canções e compositores mais convencionais de nossa música e nenhum grandes sucessos popular (que geralmente é a principal característica que se recorre quando se quer apresentar um trabalho com a finalidade comercial). O álbum é uma excelente amostra dessa nova trilha que a música popular brasileira vem seguindo nessa oxigenação que se faz necessária a partir de compositores contemporâneos e intérpretes talentosas como é o caso da carioca Mason. O "Mosaico" de surpresas de que o álbum da Mason é composto perpassa por características bastantes peculiares e isso é possível perceber quando partimos para a análise das faixas existentes no disco (onde há seis inéditas). E nesse ornamento contemporâneo é possível perceber o melhor da safra dos novos compositores brasileiros resultando em uma sonoridade elegante e totalmente diferente do que se tem ouvido por aí em um disco onde vários estilos se encontram, mas mesmo assim há uma requintada unidade.

O disco abre com uma bossa lounge intitulada "Samba mínimo", de autoria da compositora, arranjadora e cantora carioca Delia Fisher onde há a participação especial da harpista Cristina Braga; o álbum segue com a canção "Foi no mês que vem", composta por Vitor Ramil e gravada pelo mesmo no álbum "À beça" de 1995 (vale salientar que essa faixa conta com a participação das cantoras Antonia Adnet e Ana Clara Horta). O álbum continua com uma releitura da canção "Caramel" lançada a 15 anos atrás pela própria autora, a cantora americana Suzanne Vega. A faixa conta com a participação especial do percussionista Marcos Suzano.


 
Seguindo a ordem das faixas existentes no álbum chegamos a "Algum mistério", composição feita a seis mãos por Marcelo Caldi, Mauro Aguiar e Rodrigo Campello e que conta com a participação especial de Jr. Tostoi; a quinta faixa trata-se do canção "Oração blues", composição inédita do Pedro Luís e do Rodrigo Maranhão e que foi apresentada a Beatrice pela Roberta Sá. O ritmo que também empresta o nome a faixa se acentua pela gaita de Gabriel Grossi, o pandeiro de Suzano e o baixo de Jorge Helder; o álbum segue com outra inédita intitulada "Lilly blonde" (canção inspirada na composição de Chico Buarque e Edu Lobo chamada de "A História de Lilly Braun"), esta canção foi um mimo do amigo Edu Krieger que além de presenteá-la com essa música também participa na faixa seguinte intitulada "Canto só" (composição de Raphael Gemal) dividindo os vocais com Beatrice Mason. O álbum segue com mais três belíssimas canções: "Na beira do rio" (Chico Pinheiro e Paulo Neves), "Cortejo" uma composição da Ana Clara Horta e "O tempo do querer" de autoria da dupla Marcelo Caldi e Rodrigo Campello. A faixa que encerra o disco trata-se de uma composição do uruguaio Jorge Drexler que leva o nome de " .

Atualmente Beatrice vem apresentando a turnê do álbum. E "Mosaicos - o show" literalmente tem sido um show a parte. Sucesso de público e crítica por onde tem se apresentado, o espetáculo da Beatrice tem a assinatura da Ana Paula Bouzas na direção geral, na direção de arte quem dá a sua marca é Maira Knox; já o desenho de luz fica por conta de Marcelo Linhares. Entre as canções do espetáculos estão algumas presentes no disco dos novos compositores apresentados por Mason, dentre elas estão "Algum Mistério", "Lilly Blonde", do Edu Krieger; a bossa lounge "Samba mínimo", "Madre Tierra", "Foi no mês que vem", "Canto Só". O show também traz releituras como "Caramel", de Suzanne Vega, divertida e insinuante ao som da tuba. Entre as mais conhecidas do público, Beatrice Mason também mostrará interpretações pessoais de "Todo Amor que houver Nessa Vida", de Cazuza; "Doce Vampiro", de Rita Lee; "Índigo Blue", de Gilberto Gil, e "Hoje eu quero sair só", de Lenine. Vale a pena conferir!

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